domingo, 24 de maio de 2009

Ser Decadente II


Quem lhe deu a oportunidade de ser criança?
Quem lhe deu a oportunidade de saber ser feliz?
Quem lhe deu a oportunidade de viver numa casa?
Quem lhe deu a oportunidade de poder-se sentar a uma mesa e comer?
Quem lhe promete que poderá beber água sempre que tiver sede?

Quem lhe olhou nos olhos e disse que a mãe ou ele próprio não seriam mortos no segundo seguinte?
Quem é capaz de-lhe explicar que nos continentes vizinhos e nos outros países todos desperdiçam comida, todos desperdiçam água;
Que todos vivem bem menos ele?
Que todos brincam menos ele?
Que todos comem menos ele?
Que todos vivem no mais perfeito sentido da palavra menos ele?


Quem me promete que ele ainda luta para ter comida, água e felicidade?


Este mundo nos teus olhos e não no teu ecrã de televisão, jornal ou revista; que farias?

Ser Decadente

Somos aqueles que quanto mais unidos mais destruimos;
Somos aqueles que proclamamos paz em nome da guerra;
Somos aqueles que abatemos aquilo que construímos;
Somos aqueles que dão vida enquanto matam, vivem enquanto morrem.

Somos aqueles que suspiramos porque tudo está mal;
Somos aqueles que à beira na inexistência nada fazemos;
Somos aqueles que estendem a mão para se agarrarem a si mesmos;
Somos aqueles que voamos alto, não para subirem todos mas para caírem todos.

Somos aqueles que ouvem a voz de Deus e não partilham;
Somos aqueles que sabemos olhar para nós e não para os outros;
Somos aqueles que dão preço à vida e não valor;
Somos aqueles que Deus tem vergonha de ter criado;

Somos aqueles em que uma minoria tem vergonha de o ser;
Somos aqueles que apareceram assim e morrerão assim:

Somos decadentes e sabemos sê-lo. No total sentido da palavra.


Charles Henry

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Ser um Actor Santo

Encontrar o Actor Santo não Grotowskiano, mas partindo de Grotowski e não só, mas também de Antoin, de Stanislavski, de Meyerhold, de Artaud e de Brook.

Estou na busca da exaustão física e mental.


Na busca do suor frenético.

Na busca do trabalho intensivo e esgotante.

Na busca do Actor interior.

Na busca do Actor Santo.

O meu Actor Santo.


Charles Henry

sexta-feira, 15 de maio de 2009

A Arte da Lágrima

Um movimento na literatura teatral.


"Todo eu sofro. Todo eu sou dor. Todo eu sou doença. Eu sou o limite do fim da vida e do início da morte. Não vivi, não vivo, não vou viver."


A definição da vida humana como inexistente. Existindo para ser o seu próprio fardo, os seus próprios problemas, o seu próprio sofrimento. Encarando isso saber que o fim da vida é a solução, no entanto, obrigado a vive-la até ao fim já destinado e não auto decidido. O pior do ser humano é sentido e vivido na pele e na mente constantemente até ao final. Não há escapatória, está destinado, irá ser concretizado. Até ao fim e nunca antes.

Ter consciência desse defeito ou doença e, no entanto, nada poder fazer para se curar. Doenças que vão ao limite da existência humana que metem em causa os seus pensamentos e desejos mais obscuros. Numa primeira obra, A Demência, aborda-se o defeito mais natural e mais retratado no ser humano, a morte. Nascendo com um inconsciente incontrolável, a personagem que carrega esta doença mental, Johnny, não consegue impor limites nas suas acções de aniquilamento. Não é necessitado nenhum impulso para despertar o inconsciente, pode acontecer da maneira mais imprevista com qualquer outra pessoa, mas nunca com ele próprio. É-lhe impossibilitada a opção de se poder suicidar. Tem de carregar o fardo até ao fim, até o destino decidir que acabou. Nesta peça, Johnny, vive numa casa onde paz é algo inexistente. A sua mulher odeia-o e, do mesmo modo, passam os dias inteiros a discutir. Entre eles está o mordomo da família, que pressiona Johnny a tentar curar-se e está Lloyd uma personagem comum nas obras deste movimento, a personagem sem uma descrição base. É de depreender que o leitor dê a sua interpretação à personagem Corchete (Suporte).

O final da vida do Homem que carrega o fardo é traçado e previsto quando este atinge o máximo ou limite da doença. Sendo o melhor exemplo, quando Johnny mata a sua filha. Depois de a matar tenta suicidar-se e morre pelas suas próprias mãos.

Ainda que pouco explícito, este é um movimento literário teatral ainda em evolução, tentado tornar-se, ao longo do tempo, cada vez mais consistente, estando ainda numa primeira fase.


Charles Henry

Uma noite sem fim

Noite cerrada e rua silenciosa.
A mãe dorme. A irmã dorme.
Casa escura e abandonada.
No quarto uma pequena luz.
Candeeiro acesso e computador ligado.
Caneca de café com leite quase vazia.
A terceira já cheia.
Apontamentos e livros em cima da mesa.
Olhos abertos e mente acordada.

Uma noite sem fim.


Charles Henry