sábado, 7 de novembro de 2009

O "eu"

Ser e saber, a diferença de um constante paradoxo. Somos aquilo que somos e não sabemos o que haveremos de ser; mas seremos. Nós seremos.
Alguém nos dirá e nós responderemos, que o que fui afecta o que sou hoje, o que sou hoje provem do que fui e o que serei provirá do que fui e do que sou. Eu sou constante. Uma constante modificação de uma continuação sem fim, até que o fim chegue e aí, aí saberei que em tudo o que fui, em tudo falhei.
O pensamento deixa-me e eu deixo que ele me racionalize. Coloca-me numa realidade bem real que, por vezes, por mais que tente, nem o sonho a pode alterar. Por mais que feche os olhos, por mais que os olhos nada vejam, por mais que o escuro seja um vazio pronto para recomeçar algo de novo, a realidade destrói e nós, e eu fico real.
Somos, sou e serei uma constante continuação de mim próprio.

Charles Henry

domingo, 24 de maio de 2009

Ser Decadente II


Quem lhe deu a oportunidade de ser criança?
Quem lhe deu a oportunidade de saber ser feliz?
Quem lhe deu a oportunidade de viver numa casa?
Quem lhe deu a oportunidade de poder-se sentar a uma mesa e comer?
Quem lhe promete que poderá beber água sempre que tiver sede?

Quem lhe olhou nos olhos e disse que a mãe ou ele próprio não seriam mortos no segundo seguinte?
Quem é capaz de-lhe explicar que nos continentes vizinhos e nos outros países todos desperdiçam comida, todos desperdiçam água;
Que todos vivem bem menos ele?
Que todos brincam menos ele?
Que todos comem menos ele?
Que todos vivem no mais perfeito sentido da palavra menos ele?


Quem me promete que ele ainda luta para ter comida, água e felicidade?


Este mundo nos teus olhos e não no teu ecrã de televisão, jornal ou revista; que farias?

Ser Decadente

Somos aqueles que quanto mais unidos mais destruimos;
Somos aqueles que proclamamos paz em nome da guerra;
Somos aqueles que abatemos aquilo que construímos;
Somos aqueles que dão vida enquanto matam, vivem enquanto morrem.

Somos aqueles que suspiramos porque tudo está mal;
Somos aqueles que à beira na inexistência nada fazemos;
Somos aqueles que estendem a mão para se agarrarem a si mesmos;
Somos aqueles que voamos alto, não para subirem todos mas para caírem todos.

Somos aqueles que ouvem a voz de Deus e não partilham;
Somos aqueles que sabemos olhar para nós e não para os outros;
Somos aqueles que dão preço à vida e não valor;
Somos aqueles que Deus tem vergonha de ter criado;

Somos aqueles em que uma minoria tem vergonha de o ser;
Somos aqueles que apareceram assim e morrerão assim:

Somos decadentes e sabemos sê-lo. No total sentido da palavra.


Charles Henry

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Ser um Actor Santo

Encontrar o Actor Santo não Grotowskiano, mas partindo de Grotowski e não só, mas também de Antoin, de Stanislavski, de Meyerhold, de Artaud e de Brook.

Estou na busca da exaustão física e mental.


Na busca do suor frenético.

Na busca do trabalho intensivo e esgotante.

Na busca do Actor interior.

Na busca do Actor Santo.

O meu Actor Santo.


Charles Henry

sexta-feira, 15 de maio de 2009

A Arte da Lágrima

Um movimento na literatura teatral.


"Todo eu sofro. Todo eu sou dor. Todo eu sou doença. Eu sou o limite do fim da vida e do início da morte. Não vivi, não vivo, não vou viver."


A definição da vida humana como inexistente. Existindo para ser o seu próprio fardo, os seus próprios problemas, o seu próprio sofrimento. Encarando isso saber que o fim da vida é a solução, no entanto, obrigado a vive-la até ao fim já destinado e não auto decidido. O pior do ser humano é sentido e vivido na pele e na mente constantemente até ao final. Não há escapatória, está destinado, irá ser concretizado. Até ao fim e nunca antes.

Ter consciência desse defeito ou doença e, no entanto, nada poder fazer para se curar. Doenças que vão ao limite da existência humana que metem em causa os seus pensamentos e desejos mais obscuros. Numa primeira obra, A Demência, aborda-se o defeito mais natural e mais retratado no ser humano, a morte. Nascendo com um inconsciente incontrolável, a personagem que carrega esta doença mental, Johnny, não consegue impor limites nas suas acções de aniquilamento. Não é necessitado nenhum impulso para despertar o inconsciente, pode acontecer da maneira mais imprevista com qualquer outra pessoa, mas nunca com ele próprio. É-lhe impossibilitada a opção de se poder suicidar. Tem de carregar o fardo até ao fim, até o destino decidir que acabou. Nesta peça, Johnny, vive numa casa onde paz é algo inexistente. A sua mulher odeia-o e, do mesmo modo, passam os dias inteiros a discutir. Entre eles está o mordomo da família, que pressiona Johnny a tentar curar-se e está Lloyd uma personagem comum nas obras deste movimento, a personagem sem uma descrição base. É de depreender que o leitor dê a sua interpretação à personagem Corchete (Suporte).

O final da vida do Homem que carrega o fardo é traçado e previsto quando este atinge o máximo ou limite da doença. Sendo o melhor exemplo, quando Johnny mata a sua filha. Depois de a matar tenta suicidar-se e morre pelas suas próprias mãos.

Ainda que pouco explícito, este é um movimento literário teatral ainda em evolução, tentado tornar-se, ao longo do tempo, cada vez mais consistente, estando ainda numa primeira fase.


Charles Henry

Uma noite sem fim

Noite cerrada e rua silenciosa.
A mãe dorme. A irmã dorme.
Casa escura e abandonada.
No quarto uma pequena luz.
Candeeiro acesso e computador ligado.
Caneca de café com leite quase vazia.
A terceira já cheia.
Apontamentos e livros em cima da mesa.
Olhos abertos e mente acordada.

Uma noite sem fim.


Charles Henry

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Excerto de "Damien"

Damien:
"Repetes impetuosas palavras e serão as últimas que prenuncias, irmã. Fraca é a tua mente que pouco conhece, muito desconhece e fala vazio. Constróis frases que falam em matar quando tu própria nunca matas-te. Encontra o teu lugar, pois estás perdida. Ousas falar como se fosse teu capelo, mas esqueces-te que sou teu irmão e filho do mal. Não terei medo nem vergonha de suicidar minha irmã, nem castigo terei. Olho-te nos olhos e vejo que me temes como se o Inferno estivesse a acabar. Questionas-te se arrancarei tua língua como castigo de tua insolência; Ou se te arrancarei os olhos para que nunca mais possas ver o que não sabes ver; Ou se simplesmente ponho termo à tua mísera existência. Nada sabes do que poderei fazer, mas sabes que farei. Silêncio! Ficarás aqui em silêncio; Enquanto não regressar, não sairás daqui. Adeus."


Asheyla:
"Avancei por caminhos perigosos, mas que me abrem os olhos. Meu irmão é o mal. Filho do indesejado e procriador do que não há a desejar. O que respeitam e temem com pesadelos constantes. Corto minha língua e arranco o coração se meu irmão não viver para governar. Sofro por ti e, por faltar ao teu respeito, sou infiel. Matarei, por teu tributo, mil homens sem espada e num buraco guardarei o sangue onde me lavarei todos os dias para tirar a sujidade corrupta e desleal."

Damien, Charles Henry

domingo, 8 de fevereiro de 2009

As Escolhas - Momentos de Felicidade Espontânea

É necessário estar consciente das dificuldades que se encontram presentes nas nossas escolhas e ter noção que fomos nós que escolhemos. É assim que se constrói uma vida e uma carreira, é à base de escolhas. Cada escolha é uma decisão que pode ser tomada de duas formas: conscientemente ou inconscientemente. Conscientemente quando sabemos e percebemos as consequências e vantagens dessa decisão. Inconscientemente quando, por vezes, nos parece, à primeira vista, um atalho para atingirmos um certo objectivo ou sermos literalmente obrigados a tomar essa decisão.

A percentagem das pessoas que se arrependem das decisões que tomaram na vida é muito superior à das pessoas que são perfeitamente felizes com o que têm. Mas será possível ser perfeitamente feliz com a própria vida? Não haverá qualquer tipo de arrependimento com alguma escolha que tenhamos tido? Existe a felicidade total, ou será isso apenas algo espontâneo de um acontecimento da nossa vida. Com isto quero dizer, por exemplo, um momento em que recebamos uma notícia a avisar que fomos promovidos, ou que recebemos uma boa proposta de trabalho. Nesse preciso momento sentimos que somos as pessoas mais felizes do mundo. Mas isso é apenas um acontecimento de felicidade espontânea que dura segundos e não uma vida. Então teremos de dizer que uma vida perfeitamente feliz é feita unicamente de momentos de felicidade espontânea. Quem tem uma vida feita só desses momentos de felicidade espontânea? Direi impossível. Há e haverá sempre acontecimentos que nos hão de perturbar e nos marcar negativamente. A morte de um familiar, a perda de uma oportunidade, uma má escolha que nos tenha custado algo a nós ou a alguém. Isso tudo contribui para que não tenhamos uma vida inteiramente feliz.

Então é preciso registar na nossa mente que somos o que provém das nossas escolhas e que teremos de temer aquilo que decidimos?

Não, é preciso viver com o conteúdo da escolha e não com o que rodeia essa escolha. É preciso viver na constante procura de momentos de felicidade espontânea e aproveitá-los. E como não há como evitar o que nos afecta e nos perturba teremos de perceber isso e seguir em frente.

Isto não é uma daquelas lições que vêem nos panfletos das igrejas católicas que nos dão nas ruas, mas sim algo que temos de parar para pensar e questionar. É um pensamento e não uma lição. É um "Act".


Charles Henry

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Actor, O "Bicho" Estudado

Bem, este é o meu primeiro post em português para que desta vez toda a gente possa ler. (Não prometo que aconteça muitas vezes, prefiro o inglês)

Hoje começámos a colocar exercícios no "Macbeth" o que de imediato me meteu um enorme sorriso na cara. Devo confessar que anseio chegar à cena da notícia da morte da Lady Macduff e dos "meus" filhos. Tenho de admitir que esta cena mete-me nervoso e com medo. Razões que são escusadas justificar, apenas stress de actor. Ou aspirante a actor? Deixo-vos só com a notícia de que o ensaio correu muito bem. Um sucesso, dito pelas palavras do "Director".

Mas este blog, The Common Sense Book, não foi criado para discutir como correm os ensaios, mas sim para expressar ideias que ocorrem no dia a dia. Este diário não se compele a eu, autor deste blog, escrever sobre o meu dia a dia na escola de teatro, mas sim à expressão de ideias que um simples aspirante a actor pode ter. E, assim, em vez de discuti-las sozinho e acompanhado pelo meu bom senso ou consciência, coloco-as aqui para que todos os que estejam interessados possam ler e questionar e até constatar. Estou aberto a críticas, desde que fundamentadas.

Como dá para ver já postei dois posts, mas em inglês. Aproveito para pedir mais uma vez desculpa a quem não entende e prometo postar também, algumas vezes, em português. Um dos posts fala sobre a primeira descrição que temos quanto aos objectos e pessoas. O segundo sobre os pensamentos de um aluno de teatro, ou aspirante a actor, ao criar duas personagens. Uma delas sendo rotulada como a personagem mais complexa do teatro, Hamlet. Claro que aos olhos de um profissional falhei totalmente nessa criação, mas ao que parece aos olhos de um "Director" sobre um aluno não esteve mal. Pode-se sempre fazer melhor. C'est la vie. E o começo do processo de criação que estou a ter com o Macduff e os objectivos a atingir.

Já escrevi quatro parágrafos, mas ainda não disse nada. Vamos ao que interessa. Há um facto que se desconfia, mas que se tem vindo a comprovar. As pessoas sentem curiosidade pelos actores e hoje tive uma pequena prove de tal. Hoje às 18h apanhei o autocarro para voltar para casa e comecei a viajem de pé, mas foi só um bocado, e ao meu lado iam duas moças adolescentes entre os 16 e 18 anos sentadas ao meu lado. Iam a conversar. Sendo realista, iam, provavelmente, a cochichar. Cerca de dez minutos depois uma delas, a que vinha do lado contrário da janela, levantou-se e saiu, e eu como estava de pé sentei-me. Enquanto ela olhava pela janela eu olhava não sei exactamente para aonde, pois ia a divagar perdidamente nos meus pensamentos. Ou seja a sonhar. Isto quando me lembro de tirar a peça "Macbeth" da mochila e pus-me a estudar o texto. Assim que fiz tal coisa a moça adolescente não resiste em olhar, mas não foi só olhar. Digo isto porque há o olhar de ver o que acabou de acontecer ao meu lado e o olhar de estou perdidamente curioso de saber o que tens na mão. A moça estava definitivamente no segundo olhar. E mais perdida ficou neste olhar quando viu que era uma peça com falas sublinhadas e com várias notas:

-" É um actor." - pensou ela.

Assim ficou variadíssimo tempo a observar o que eu fazia. Até que eu fiz algo que iria provocar mais curiosidade na moça adolescente. Tirei da minha mochila os meus apontamentos de criação de personagem, para anotar algumas dúvidas e ideias que tinha tido. Revirei a peça e as folhas dos apontamentos várias vez enquanto que esforçava a cabeça para pensar o melhor possível. (O tal stress de actor, ou aspirante a actor)

Era inevitável, até ela chegar à sua paragem contaram-se pelos dedos os segundos que desviou o olhar dos meus papeis. Assim comprovo que nós, actores, no meu caso, aspirante a actor, somos um grupo que é constantemente estudado e observado pela sociedade que nos rodeia. Pouco sabe essa sociedade que o nosso trabalho é estudá-la e representá-la. Assim que ganharem consciência disso, de certo ficaremos sem trabalho.


Charles Henry

domingo, 1 de fevereiro de 2009

The Character

To an actor the primary objective is to create his character. To fill that empty soul just described in the lines of the play and give life to it, filling it with colours and show it to the world (public). But what it seems an easy achievement is in fact a harsh work for the actor. He has to research, search, look, see, hear, be aware of everything and everybody. It has been said to me that an actor works twenty-four hours a day. I can stand for it, and I've learn it in the hard way. The constant observation of everything that surrounds us. And make a selection of what can fit in our character. In here we apply our creativity. How to use it, when to use it. It's a selection and an option or options we have to take and choose. And whether they stand or not that depends of the director of the play. "I like it"; "It's too much, cut some of it"; "You're in the right way, just look deeper". The usual words we ear from the director when we present propositions.

It was the transition of my knowledge about acting that made me what I am today. A better person, a better "actor". It was Hamlet that made me see the real theatre. The real acting. It was the hard work I had, and many of my colleagues had too, that made it possible for me to grow as a person and as an actor. This was the transition I had to make for the new part, Macduff in the Scottish Play. Now I have the perspective I need to make this role work and be real. But am I ready to give life to this character? Am I up to it? I'm aware that the hard work alone will not be enough for this character. Talent will be needed. Every good character needs a talented actor. Am I a talent actor or just a hard work actor? We will see with the development of this objective, that is to give life to Macduff.


Charles Henry